
Nelson Mattos, o Brasileiro do Google
Formado nos anos 80 pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul em ciências da computação e com doutorado em Kaiserslautern, na Alemanha, Nelson Mattos é o único brasileiro nos altos escalões do Google. Como vice-presidente de engenharia do buscador para a Europa, Oriente Médio e África, ele chefia 500 engenheiros distribuídos em 12 capitais européias. Mattos fala em entrevista sobre sua carreira, a estratégia da empresa e o futuro da internet.
Qual foi o primeiro computador que você teve?
O primeiro computador que eu trabalhei foi no período do regime militar, quando o Brasil estava tentando criar uma indústria nacional. Era um computador da Nixdorf, de tecnologia alemã e produzido no Brasil. Era um computador médio, pois ainda não existiam PCs. Ele rodava o basic, a linguagem principal de computação, e o assembler. Nessa época eu estava estudando na Universidade do Rio Grande do Sul.
Na IBM você trabalhou na área da informática chamada web semântica. O que isso significa?
Quando voltei a pesquisar na IBM, um dos projetos nessa área era o WebFountain. Ele também estava sob minha responsabilidade. A IBM tem vários projetos em web semântica. No caso do WebFountain, o objetivo era analisar todo o conhecimento que está disponível na internet e, com isso, tentar descobrir tendências. Um exemplo: se você é um artista que lançou um novo CD e quer tentar descobrir o que os usuários pensam a respeito do trabalho. Se você conseguir analisar um grande volume de dados que está disponível em blogs, páginas da internet, nos chat rooms e coisas do gênero, então você terá condições, de uma forma geral, de saber quais são as tendências, ou seja, o que está se falando sobre um determinado tema.
O cargo de vice-presidente de engenharia do Google para Europa, Oriente Médio e África tem a ver com a estratégia de regionalização?
O Google trabalha no mercado consumidor – se você olhar, todos os produtos do Google estão voltados para o usuário final como os produtos de busca, o Google Maps ou o Google Earth. Quem interage com esses produtos é o usuário final. Obviamente o usuário final é diferente em cada lugar do mundo. O tipo de consulta que os brasileiros fazem é diferente do tipo de consulta que os suíços fazem na Suíça. O comportamento dos russos ou chineses também difere. Por isso é importante que o Google tenha a percepção das diferenças que existem entre seus usuários. Por exemplo: a gente sabe que o adulto no norte da Europa lê, em média, três jornais por dia. Já na Suíça essa média é de um jornal por dia. Obviamente a maneira pela qual uma pessoa da Noruega utiliza a internet é muito diferente da maneira que um suíço utiliza.
É por isso que o Google desenvolve seus produtos em diferentes países?
Sim. Desde o início, o Google tinha a visão de que para você poder criar produtos que são relevantes a cada usuário no mundo inteiro, é necessário ter engenheiros de desenvolvimento que tenham um bom conhecimento do comportamento e das necessidades de cada usuário. E isso é impossível de fazer se você tem todo o desenvolvimento centralizado na Califórnia. Afinal, o pessoal que está sentado na Califórnia vai obviamente entender muito bem as necessidades da população americana. Mas você acredita que eles entenderiam a necessidade dos brasileiros, dos chineses ou dos noruegueses? Obviamente que não! Por isso, já há bastante tempo, a Google criou essa estratégia de abrir centros de pesquisa e desenvolvimento em vários países do mundo.
Qual é o papel dos diferentes centros de pesquisa no mundo?
A idéia, quando se começou a criar esses centros, é que cada um deles teria duas funções: trabalhar em produtos e iniciativas que vão ter impacto global – por exemplo, o Google Maps, cujo grande parte do desenvolvimento é feito em Zurique, mas que é utilizado no mundo todo – e, finalmente, adaptar os produtos da Google, desenvolver novas extensões ou mesmo novos produtos que são específicos para um mercado local. Um exemplo disso é o Google Transit, uma extensão no Google Maps que permite obter informações sobre meios de transportes públicos para ir de um local ao outro, seja de ônibus, trem, metrô ou caminhando. Obviamente essa é uma extensão extremamente popular na Europa. Inclusive, recentemente, a gente lançou uma extensão que reúnes todos os dados das companhias de trens e bondes aqui da Suíça.
Mas por que alguns produtos da Google “pegam” em alguns mercados e outros não?
Nós concluímos que muitas dessas extensões, feitas para um mercado local, podem ter aplicação em outros lugares. Se você pegar o Transit, que é extremamente utilizado em alguns países da Europa, ele também é utilizado nos Estados Unidos, sobretudo em grandes cidades com bons sistemas de transporte. Porém se você olhar as áreas rurais nos EUA, praticamente ninguém utiliza esse serviço.
Essa lógica explica por que o Orkut, uma rede social criada por um funcionário nos Estados Unidos, um turco, só ter sucesso no Brasil?
Sim, esse é um bom exemplo. Trata-se de um produto que teve uma receptividade extremamente forte no Brasil, mas também na Índia. Essa situação cria um círculo de desenvolvimento interessante. Nesse caso, poderíamos falar no ciclo de desenvolvimento de produtos, algo que é extremamente curto na Google. Ele vai de dois a três meses. A idéia é lançar alguma coisa no mercado e ver como os usuários vão reagir. Pelo fato de trabalharmos diretamente com o usuário final, ao lançar um protótipo, algo simples, podemos saber imediatamente se ele está gostando ou não e o que está faltando para melhorar o produto. Isso cria novos requerimentos que são colocados no desenvolvimento. Em três meses eu posso lançar mais alguma coisa e satisfazer aquelas exigências. Com isso eu recebo mais feedbacks e assim continua a história.
Quer dizer que o próprio usuário termina participando no desenvolvimento dos produtos da empresa?
O fato de o Orkut ter sido bastante popular no Brasil fez com que a gente recebesse cada vez mais feedbacks da população brasileira. Isso fez com que ele se tornasse cada vez melhor para aquele ambiente no Brasil. Porém o Orkut não se tornou popular em outros países. Isso é um exemplo bem interessante, porque mostra a importância de você ter centros de desenvolvimento no mundo todo. Eu até diria que essa é uma das grandes diferenças entre o Google e outras empresas com centros de desenvolvimentos centralizados. Com isso temos condições de criar produtos específicos, que possam satisfazer as exigências de cada usuário e entender culturalmente o que aquela população precisa.
Quais são os futuros desafios?
Nosso objetivo, a missão do Google, é organizar toda a informação do mundo. Em segundo lugar, fazer com que essa informação esteja disponível a qualquer usuário e que seja útil para ele. Trata-se de um desafio, pois nem toda a informação no mundo é baseada em texto. O volume de imagens, vídeos e áudios que cresce na internet é algo fenomenal. Apesar de dispormos de produtos que já têm condições de buscar imagens, textos, etc com uma única consulta, ainda temos muitas desafios pela frente. No universal search do Google, por exemplo, com uma única consulta você pode receber resultados que são textos, páginas web, imagens, vídeos, áudios e assim por diante.
Encontrar imagens no Google é algo ainda bastante complicado. Como é possível calibrar um motor de procura para encontrar dados tão diversos?
No momento os usuários estão satisfeitos com a interface que oferecemos no Google. Mas se você começar a pensar que, a longo prazo, o volume de imagens e vídeos vai se tornar cada vez maior na Web, podemos imaginar um momento em que o usuário queira uma interface diferente para a sua busca. E se você tem uma fotografia em mãos e quiser saber se existem outras fotos parecidas com ela? Ou se você tem uma foto da Torre Eiffel e necessitar de outras, pois está fazendo uma reportagem sobre o tema? Seria muito mais fácil se o usuário pudesse dizer: “busque as fotos parecidas com esta”. Essa interface seria completamente diferente, porque você não vai escrever em textos o que está procurando. Por isso é que ainda existe muita pesquisa nessa área. Não apenas para entender melhor a semântica desses dados, que são ainda menos estruturados, mas também para tentar entender qual é a melhor interface para o usuário ou qual a melhor maneira de expressar o que você está procurando na internet.
Qual a importância das redes sociais para o Google? Você acredita que a Web 2.0 é realmente o futuro da rede?
Isso é muito difícil de saber. Quem poderia imaginar, há 10 anos, que a internet ia ser o que é hoje. No momento essa é uma tendência bastante popular. Deixe-me dar um histórico para você entender porque esse fenômeno é tão interessante. Se você olhar o que aconteceu na área tecnológica nos últimos 10 anos, ocorreu uma redução significativa no custo dos processadores, do arquivamento e das ferramentas para a criação de conteúdo. Há alguns anos, somente empresas tinham condições de criar um site e começar a disponibilizar conteúdo para seus usuários. Tudo era muito caro. O custo de armazenamento, de processamento daqueles dados, exigia máquinas grandes. Hoje em dia, qualquer telefone celular tem uma câmara fotográfica. O preço de armazenamento é medido em centavos. Qualquer usuário do mundo tem a possibilidade de digitalizar uma imagem e armazenar. Ao mesmo tempo foram criadas ferramentas – a maior parte delas é de uso livre – que permitiu que esses usuários começassem a colocar seu conteúdo na rede.
E como o Google se enquadra neste contexto?
Como a missão da Google é organizar todas as informações do mundo, obviamente aquelas que estão sendo criadas dentro de um ambiente de redes sociais – onde você está interagindo com seus amigos, colocando suas imagens, escrevendo no chat – também são informações. E é claro que achamos importante poder organizá-las e torná-las disponíveis a qualquer pessoa. Se você tiver procurando imagens, é possível que elas estejam armazenadas dentro de um sistema de rede social. A estratégia do Google não é necessariamente competir com todos os sistemas embora tenhamos o Orkut, cujo sucesso na Índia e Brasil nos deixa orgulhosos. Porém existe a necessidade de permitir a compatibilidade e o transporte de dados entre elas.
Porém não existe o problema das diversas redes sociais estarem baseadas em plataformas técnicas completamente distintas?
Exatamente. Cada sistema é completamente diferente do outro. A estrutura interna do Orkut é completamente distinta do Facebook, que também é distinta do MySpace.
O projeto OpenSocial do Google não tem o objetivo de ser uma kinguagem aberta nessa área?
O OpenSocial é uma plataforma que permite a troca de dados entre todos esses sistemas. Essa é uma tentativa de se criar uma norma, que permitiria qualquer usuário de interagir com esses sistemas e, provavelmente, as empresas criarem aplicativos que teriam condições de rodar em qualquer um deles. Quais seriam os benefícios? Em primeiro lugar, continuar incentivando a inovação na internet. Se existem 10 ou 20 sistemas de rede social, uma empresa que teria uma idéia magnífica ao criar um novo aplicativo para redes sociais, só precisaria desenvolvê-lo uma vez. Ele rodaria então no Orkut, no Facebook e em qualquer outro sistema. Da mesma maneira, como hoje em dia as interfaces dos motores de busca são praticamente as mesmas, se você tem uma idéia de um aplicativo para rodar em cima de um sistema, com essa tecnologia ele teria condições de rodar na Google e em todos os outros. Esse é o primeiro objetivo.
Como o usuário poderia aproveitar essas plataformas únicas?
A segunda grande vantagem é para o usuário. Muitos deles utilizam mais do que uma rede social. Muitas vezes, eles têm um ambiente utilizado na área profissional e outros na área privada. Mas muitas vezes os contatos podem ser profissionais e privados ao mesmo tempo. Não seria então interessante para você permitir que esses dados sejam extraídos de um e colocados no outro, obviamente sob o controle pessoal? Um sistema aberto tornaria bastante fácil essa ação. Ou até mesmo se o usuário não estiver satisfeito com um sistema de rede social e queira utilizar uma outra rede, ele poderia retirar os seus dados, colocar em um outro sistema e continuar a utilizá-los.
Muito falado também é o projeto Google Mobile. Como chefe de pesquisa na Europa, qual o seu papel nessa área que parece ser estratégica para a empresa?
O Google Mobile é um projeto extremamente importante para nós. Grande parte do seu desenvolvimento ocorre na Europa. O centro de pesquisas de Londres é o centro de desenvolvimento principal do Google na área de telefonia celular. É um grupo que trabalha diretamente para mim. Por que ele é importante? Hoje em dia, para cada PC vendido, são vendidos três celulares. Se você pensar em países do Terceiro Mundo, a maioria dos usuários tem acesso à internet através de celular e, provavelmente, nunca terão condições financeiras de comprar um PC, pelo menos no momento. A grande pergunta é que, mesmo se o preço dos PCs continuar a cair e se tornar acessível a todos, será que os usuários vão querer realmente utilizá-lo? Ou será que eles irão gostar tanto da interface do celular, que mesmo o barateamento dos computadores não será um grande incentivo ao seu uso? O Google acha que o Mobile é uma grande possibilidade de fazer com que as informações disponíveis na Web sejam acessíveis a qualquer usuário.
Poderemos então começar a aposentar nossos computadores e passar só a utilizar o celular?
Eu não diria necessariamente que este será o fim do computador. Pelo menos hoje em dia, e talvez nos próximos dois ou três anos, eu não conseguiria me imaginar abandonando o meu laptop por um celular num ambiente empresarial. Mas existe uma população enorme que não terá acesso a um PCs nos próximos anos. Porém eles têm acesso ao celular.
Fonte: Jornal do Commercio por Alexander Thoele da agência pr newswire





